Criança agressiva na escola deve perder o ‘trono’ dentro de casa

Postado em 27/06/2018

Criança agressiva na escola deve perder o ‘trono’ dentro de casa

Bonzinhos perto dos pais e bravinhos na frente dos coleguinhas precisam de limites e tarefas de socialização

Aquele velho e conhecido ditado popular “é de pequeno que se torce o pepino” é a mais pura verdade e deve ser levado à risca, principalmente pelos pais cujos filhos são agressivos fora de casa. Afinal, é na infância que se começa o lento processo de educação e o preparo dos pequeninos para o convívio social.

Segundo a psicóloga Vera Zimmermann, coordenadora do Centro de Referência da Infância e Adolescência da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a princípio, todas as patologias sociais aparecem cedo. “É a concepção do psiquismo, é de pequeno que podemos reverter a situação”, avisa.

A jornalista Camila Fraia, 36 anos, vive a situação com o filho único Felipe, 3 anos e sete meses. “Desde o berçário, quando outra criança pegava um brinquedo dele, a reação era morder o colega. Como ele tinha meses, nenhuma professora repreendia. Mas quando ele começou a andar, ficou mais agressivo. Sempre vinha um bilhete da professora dizendo que ele tinha batido em algum colega”, conta a mãe.

Em casa, Felipe é tranquilo e convive com os primos normalmente. Camila tenta mostrar o caminho certo conversando com o filho. “Dizemos que não adianta agredir. Mas parece que ele não entende. Às vezes, acabo de falar e quando ele volta da escola, a reclamação vem junto".

 Perda do ‘trono’

Para a psicóloga Vera Zimmermann, a situação grupal na escola coloca um desafio maior de capacidade de tolerar frustrações e sair do trono, ou seja, ser mais um na multidão, não mais o centro das atenções. “Em família, mesmo que haja irmãos, a presença dos pais e suas formas conciliadoras, tendem a minimizar a experiência da divisão, o que uma professora não consegue frente a uma turma maior”, explica.

É o caso de Natália, 10 anos. Embora não seja filha única – é caçula de cinco filhos –, as brigas no colégio não foram evitadas. “Em casa, ela é muito amável, divertida e educada. Mas na escola, é extremamente crítica. Quer sempre ser a líder da brincadeira, quer ser a melhor em tudo e não aceita a opinião das amigas. E aí começam as brigas”, relata a mãe da pequena, Elisamar Rosa, 45 anos.

Como forma de controlar a situação, ela tenta fazer a filha se colocar no lugar das amigas. “Eu simplesmente faço com ela a mesma coisa que ela faz com as outras crianças, tento passar pra ela que todos temos defeitos e qualidades, e que devemos aceitar as pessoas, assim como elas nos aceitam, sem brigar por tudo. Mas é difícil, porque ela tem o gênio forte, combinado com o espírito de liderança e às vezes é mal interpretada, tornando-se a chata da turma”, conta.

 

Diagnóstico

“Estes pais precisam se perguntar se estão oferecendo aos filhos experiências de tolerância à divisão, bem como de sentir-se excluído de uma cena, o que é fundamental para a socialização. Muitas vezes, a cena familiar é tão perfeita e amorosa que cria um ideal impossível de ser mantido no ambiente social. Então, temos as readaptações e crianças sentindo-se não amadas pelos colegas e professores, já que eles colocam limites e regras, deixando todos no mesmo nível de atenção”, avalia Vera Zimmermann.

Segundo a especialista, caso a agressividade fora de casa não se resolva, é necessário que a criança seja avaliada por um profissional. Mas a psicóloga dá algumas dicas para solucionar o problema, o primeiro passo é combater o individualismo:

- Não ter TV nos quartos, mas um aparelho comum para a criança aprender a dividir programas e horários com pais e irmãos;

- Estabelecer tarefas desde pequeno, conforme a idade, para que eles se sintam participativos dentro de casa (arrumar cama, lavar a louça, colocar roupa na máquina, arrumar a mesa);

- Pais devem também dividir as tarefas entre si para dar o exemplo. Não deixar que apenas um faça tudo;

- Frustrar a criança, às vezes, ajuda a ensinar as regras da sociedade, como respeitar o desejo do irmão ou dos pais em detrimento do dela;

- Tirar o ‘trono’ da criança quando ela deixa de ser bebê. Ela não precisa perder a majestade, continua sendo especial, mas não precisa mais ser o centro de tudo;

- Ensinar a respeitar as visitas, cumprimentar a todos, agradecer quem faz o almoço, elogiar a roupa limpa;

- Os pais devem estar alinhados com a escola e conversar com os professores;

- Criança deve ser ensinada a aceitar a autoridade da instituição de ensino e do professor;

- Levar o filho a se colocar no lugar do outro.

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